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Aula Com J. Borges - Sesc Pompéia

Olá,

Todo início de ano dou uma olhada na programação do Sesc e me organizo para o dia da inscrição. Desta vez o tema era De Mestres e Donas : Arte e Cultura Popular Brasileira. E estava difícil escolher quais cursos fazer.

Quando li Xilogravura do Sertão com J. Borges fiquei animada. Outro curso que muito me interessava era com o Espedito Seleiro, artista que trabalha com couro lindamente, e fez parceria com os Irmãos Campana. Mas assim que as inscrições começaram - eu não tenho preferência nos cursos, por isso aguardo as vagas que sobram - logo de cara Espedito já esgotou. A primeira turma de J. Borges também (eu não sabia que tinham duas turmas), cheguei até a pensar em desistir, mas fui no dia da inscrição, e lá descobri a segunda turma do Borges. Fiquei bem feliz!

Observando o mestre. Aprendi muito, foi um curso maravilhoso.

Foram duas tardes de muito aprendizado. Entramos na sala e lá estava ele, no auge dos seus 82 anos, com a bengala, sentado na cadeira. Cada um que entrava ficava um pouco receoso de falar com o mestre, alguns já chegaram cumprimentando, tirando fotos. Eu sentei numa mesa distante e só fiquei observando. Logo o filho dele, Pablo Borges começou a distribuir os pedaços de mdf, lápis e borracha para cada um dos alunos. E disse que a gente podia começar a desenhar. Então eu perguntei: - desenhar direto no mdf? Ele disse que sim, mas se a gente quisesse podia fazer primeiro no papel. Eu como já fiz dois cursos de xilo e outro de block printed, tenho um pouco de conhecimento de como as matrizes são feitas. Inclusive perguntei se eles pensavam o desenho ao contrário na hora de esculpir, e mais uma vez a resposta do Pablo foi simples: - não, a gente desenha do jeito que vem na cabeça, e quando imprimi fica ao contrário. Pois é, eu tinha muito que aprender com eles.

Não tive como registrar esse momento.

 O primeiro desenho que me veio a mente foi a igreja. Eu havia acabado de sair da aula de arquitetura colonial (vou fazer um post sobre ela em breve) e achei que seria um bom tema. A mão livre mesmo e direto no mdf fiz meus primeiros rabiscos. Quando terminei, vi que tinha um lugar na mesa do Mestre, então fui lá e me sentei. Ao lado uma amiga feita pouco antes de entrar na sala. Então o gelo aos poucos foi quebrado. Descobri um senhor falante e cheio de boas histórias para contar. Entre um papo e outro ele seguia firme esculpindo um desenho. Eu fiz algumas perguntas sobre o meu, ele até pegou para entalhar alguns trechos. Foi uma tarde muito gostosa. Outros alunos se aproximaram, para cada um ele tinha algo a comentar. Nada de cara feia ou falta de vontade. Tudo era feito com muito prazer.

            
Pablo fazendo as impressões. Todo o processo é bem artesanal.

Voltei para casa extasiada. Que tarde! Que aula! Quanta simplicidade, generosidade e talento em uma pessoa só. Agora estava ansiosa para o segundo dia, quando a impressão seria o foco da aula. Terminei minha igreja na primeira aula mesmo. Aproveitei o resto do tempo para ouvir o J. Borges, conversar sobre o nordeste (minha família é da Bahia), e aprender mais com ele.

Segundo dia e já cheguei com a ideia de fazer uma outra matriz. Desta vez uma tricoteira. E não é que os deuses do desenho estavam ao meu favor? Com o lápis em mãos fui fazendo as linhas bem simples e cheguei num resultado bem interessante.

Registro do J Borges entalhando a minha matriz. 

Não sentei ao lado dele logo no início. Fui atrás do Pablo e descobrir como as impressões no Memorial J. Borges - que não são poucas - são feitas. E de novo descobri muita coisa. Apesar de ter uma grande produção, eles ainda fazem todo o processo de forma bem manual. Eu adorei descobrir.

As obras que comprei diretamente com eles.

Fiz provas da minha igreja. Gostei do resultado, mas precisava melhorar. Faz alguns anos que não esculpia a madeira e acabei perdendo a mão. Mas na segunda matriz já estava mais segura. E para ter uma opinião do Mestre - a gente precisa aproveitar esses momentos - sentei novamente ao lado dele e não é que trabalhamos a matriz em conjunto? Pois é, expliquei o que estava pensando, e ele fez umas texturas bem interessantes, aliás texturas são características fortes do trabalho dele. Temas cotidianos, relativamente simples, mas com desenhos sofisticados, é assim a sua arte.

Pensei na necessarie para organizar aquele projeto em andamento.

No final acabei gostando mais ainda da tricoteira. Fiz algumas provas, inclusive o Pablo me ajudou a imprimir uma. E no final do curso já estava animada a produzir uma nova série de xilos para estampar as minhas ecobags.

Flâmula ou panô para decorar o ateliê, ou aquele cantinho especial na sua casa.

Tirei fotos, comprei gravuras do pai e do filho, ambos fizeram dedicatórias, levei um catálogo de exposição antigo, que também foi autografado. Ou seja, aproveitei muito esses dois dias de curso, e fiquei com muita vontade de conhecer o ateliê dele em Bezerros (PE).

Agora estou renovada, e ainda mais inspirada. Lancei uma série de impressões da tricoteira, que virou Tricô apenas. São flâmulas e uma necessarie. Não tenho intenção de fazer várias cópias, inclusive o mdf por ser muito maleável não resistiria a tanto.

Espero ter animado vocês. Por mais difícil que parece realizar sonhos, a gente nunca deve desistir. Aproveita que o ano está só começando.













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